A loucura invade-me! Logo de manhã!
Abate-se sobre mim, profunda, imparável, aos primeiros sinais de acordo.
Vela sobre o meu sono, pacientemente à espreita, a uns palmos (ou a milímetros, sei lá eu, se estou a dormir…) do meu rosto. Sente-me, estuda-me, espera-me…
E eu sinto-a a ela. Refugiado atrás dos meus olhos fechados, sinto-a, a pairar: sinto o seu sopro, sinto o seu peso que me esmaga e não me toca, sinto os seus olhos que não me largam, coruscantes, o seu odor fantasmagórico. Sinto a sua presença pesada, medonha, fria e quente, em todo o lado e em lado nenhum, mas sempre ali, a toda a minha volta. A pairar, à espera…
A loucura invade-me logo de manhã! Todos os dias…
Assim que o Sol se levanta, quando os corpos aquecem e o planeta volta à vida, assim que respiro cada novo dia, a loucura invade-me. Avassala-me a Alma, corrói-me o espírito, subjuga-me e consome-me. Todos os dias…
A minha resistência é inútil. Porque a minha loucura é irresistível. Regozija-se com o meu olhar assustado, com os traços de pavor que me marcam o rosto quando a vejo. Nos breves instantes de lucidez que me concede, breves como as estrelas que riscam o céu das noites, deixa-me exactamente o tempo de saber o que vai acontecer, sem tempo para nada poder fazer. Sem fugir, nem gritar, nem lutar, nem resistir…
De olhos fixos nos meus, abate-se sobre mim, profunda, imparável. Quase que ouço o seu riso rouco, gutural, que vibra nos meus ossos como um terramoto, enquanto desce, irresistível e imparável, sobre os restos de mim. Desce ao meu encontro, inexorável, terrível, e deleita-se com a minha impotência, com a inevitabilidade da sua possessão.
A aurora, para mim, não traz esperança. Porque é nessa altura que começa o meu cativeiro. Os passos que dou não são os meus passos. As escolhas que faço não são as minhas escolhas. As regras que me impõem não são as minhas, o que digo não é o que penso.
A loucura leva-me, inerte, preso dentro de mim. De olhos abertos, dolorosamente lúcido, nitidamente desperto. Vejo, cheiro, toco, ouço. E sinto!!! Tudo… sem mexer um músculo, sem decidir, sem dizer que sim… ou que não…
A loucura invade-me logo de manhã! Todos os dias! E a cada dia…
Embrenha-se em cada fibra do meu corpo. Cada osso, cada músculo, tudo enrijece, tudo se aperta, como muralhas sobre muralhas erguidas à minha volta.
E, a cada dia, eu não sou eu. Sou a minha loucura em mim. Marioneta presa num corpo que não é meu, que não controlo, num mundo que não reconheço. Numa vida que passa por mim sem deixar marcas, sem cheiros, sem cores, sem calor, sem nada…
Existo apenas, amarrado, submerso, subterrado. Preso com mil amarras de silêncio, torturado a cada instante, agrilhoado, aferroado, abatido, moribundo…
Porque a minha loucura é senhora de mim. Dispõe a seu bel-prazer, usa, abusa. Choro lágrimas ressequidas, enquanto sonho, acordado, com a libertação da Noite. Sofro mil tormentos, enquanto anseio pela escuridão que trará, de novo, a sanidade.
A minha loucura invade-me logo de manhã!
Mas quando tudo escurece à minha volta, quando as formas desaparecem, quando o Mundo indistinto e sem forma assoma, quando o breu se torna breu e o escuro verdadeiramente escuro, eis que o meu espírito retalhado encontra tréguas, salvação, alivio…
E, quando a noite cai, a minha sombra desvanece-se nas sombras que me rodeiam, o negrume da minha loucura, a escuridão da minha Alma, dissolvem-se no manto que estende sobre mim.
E é aí, com os olhos fechados que vêem, com mãos paradas que tocam, com um corpo inerte que vive, é aí, nos sonhos, que encontro, de novo, a minha lucidez.
A minha liberdade!
Abate-se sobre mim, profunda, imparável, aos primeiros sinais de acordo.
Vela sobre o meu sono, pacientemente à espreita, a uns palmos (ou a milímetros, sei lá eu, se estou a dormir…) do meu rosto. Sente-me, estuda-me, espera-me…
E eu sinto-a a ela. Refugiado atrás dos meus olhos fechados, sinto-a, a pairar: sinto o seu sopro, sinto o seu peso que me esmaga e não me toca, sinto os seus olhos que não me largam, coruscantes, o seu odor fantasmagórico. Sinto a sua presença pesada, medonha, fria e quente, em todo o lado e em lado nenhum, mas sempre ali, a toda a minha volta. A pairar, à espera…
A loucura invade-me logo de manhã! Todos os dias…
Assim que o Sol se levanta, quando os corpos aquecem e o planeta volta à vida, assim que respiro cada novo dia, a loucura invade-me. Avassala-me a Alma, corrói-me o espírito, subjuga-me e consome-me. Todos os dias…
A minha resistência é inútil. Porque a minha loucura é irresistível. Regozija-se com o meu olhar assustado, com os traços de pavor que me marcam o rosto quando a vejo. Nos breves instantes de lucidez que me concede, breves como as estrelas que riscam o céu das noites, deixa-me exactamente o tempo de saber o que vai acontecer, sem tempo para nada poder fazer. Sem fugir, nem gritar, nem lutar, nem resistir…
De olhos fixos nos meus, abate-se sobre mim, profunda, imparável. Quase que ouço o seu riso rouco, gutural, que vibra nos meus ossos como um terramoto, enquanto desce, irresistível e imparável, sobre os restos de mim. Desce ao meu encontro, inexorável, terrível, e deleita-se com a minha impotência, com a inevitabilidade da sua possessão.
A aurora, para mim, não traz esperança. Porque é nessa altura que começa o meu cativeiro. Os passos que dou não são os meus passos. As escolhas que faço não são as minhas escolhas. As regras que me impõem não são as minhas, o que digo não é o que penso.
A loucura leva-me, inerte, preso dentro de mim. De olhos abertos, dolorosamente lúcido, nitidamente desperto. Vejo, cheiro, toco, ouço. E sinto!!! Tudo… sem mexer um músculo, sem decidir, sem dizer que sim… ou que não…
A loucura invade-me logo de manhã! Todos os dias! E a cada dia…
Embrenha-se em cada fibra do meu corpo. Cada osso, cada músculo, tudo enrijece, tudo se aperta, como muralhas sobre muralhas erguidas à minha volta.
E, a cada dia, eu não sou eu. Sou a minha loucura em mim. Marioneta presa num corpo que não é meu, que não controlo, num mundo que não reconheço. Numa vida que passa por mim sem deixar marcas, sem cheiros, sem cores, sem calor, sem nada…
Existo apenas, amarrado, submerso, subterrado. Preso com mil amarras de silêncio, torturado a cada instante, agrilhoado, aferroado, abatido, moribundo…
Porque a minha loucura é senhora de mim. Dispõe a seu bel-prazer, usa, abusa. Choro lágrimas ressequidas, enquanto sonho, acordado, com a libertação da Noite. Sofro mil tormentos, enquanto anseio pela escuridão que trará, de novo, a sanidade.
A minha loucura invade-me logo de manhã!
Mas quando tudo escurece à minha volta, quando as formas desaparecem, quando o Mundo indistinto e sem forma assoma, quando o breu se torna breu e o escuro verdadeiramente escuro, eis que o meu espírito retalhado encontra tréguas, salvação, alivio…
E, quando a noite cai, a minha sombra desvanece-se nas sombras que me rodeiam, o negrume da minha loucura, a escuridão da minha Alma, dissolvem-se no manto que estende sobre mim.
E é aí, com os olhos fechados que vêem, com mãos paradas que tocam, com um corpo inerte que vive, é aí, nos sonhos, que encontro, de novo, a minha lucidez.
A minha liberdade!

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